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VII SIPEC - SUDESTE SIMPÓSIO DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO MOGI DAS CRUZES 1998
QUINZE CASOS DE INCOMUNICAÇÃO: Considerações sobre o texto de John Parry Coordenador: Prof. Dr. Isaac Epstein *
Pesquisadores:** Betania Maciel de Araújo ___________________________________________________________________________ *Doutor em Ciências da Comunicação(USP). Coordenador Adjunto do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da UMESP- Universidade Metodista de São Paulo **Doutorandos em Comunicação Social -UMESP
INTRODUÇÃO A interpretação dos códigos muitas vezes incluem obstáculos à comunicação. A falta de entendimento das mensagens tanto pode causar um mal entendido e outras vezes não levam ao entendimento, deixando muitas impressões de que algo deixou de registrado. Nesse texto, vamos enumerar as sete barreiras da comunicação, do livro de John Parry, Psicologia da Comunicação, 1972 e também analisando situações do cotidiano de cada participante do estudos. As situações abaixo relacionadas supõem que o ensino está tentando transmitir uma mensagem ao receptor, podendo-se rastrear o fracasso até chegar a qualquer uma das duas partes ou possivelmente às duas. Na última situação, queremos esclarecer que não é caracterizada como uma concepção psicológica; o que significaria que nada tem a ver a causa dos fracassos da comunicação estar relacionada com as características do ensino e do receptor. Queremos nesse estudo deixar claro que os recursos inadequados de comunicação acarreta prejuízos tanto quanto a ausência deles. As barreiras estão relacionadas diretamente como o receptor recebe a mensagem, não sabendo distingui-la. Como que, nem todos os fracassos de comunicação acarretam um mal-entendido específico. Muitos não conduzem a nenhum entendimento, senão apenas a uma confusa impressão de que alguma coisa deixou de ser registrada. Em outras ocasiões, reduz-se a eficiência na rapidez ou precisão com que a informação é assimilada. De acordo com Parry, são sete as principais barreiras à comunicação humana:
É o limite da capacidade do indivíduo, os erros começarão a ocorrer, e o seu comportamento se aproximará de um sistema feito pelo homem. Quando o ruído produz uma perda moderada e não foram mobilizados todos os recursos psíquicos do receptor para lidar com a entrada de informações. A recepção de uma contínua informação de conteúdo depende não só da capacidade do receptor no momento, mas também da qualidade da mensagem e sua interpretação, possibilitada a longo prazo pela capacidade de atenção do receptor como também do interesse de concentração que esse tenha sobre a mensagem enviada. Nesse tópico podem ser incluídos todos os fatores extrínsecos que interferem na recepção de mensagens. Entendo por fatores extrínsecos o que não se relacionam com o significado nem a interpretação; isto é, esse tipo de fator impedirá a recepção independentemente do conteúdo da mensagem. Opera sem atentar para o estado de informação de receptor, as suas atitudes e orientações e, em suas formas mais extremas, impede a recepção da mensagem mais simples e mais clara. Essa é a causa mais comum dos mal-entendidos cotidianos, residem no fazer a pessoa que fala ou escreve uma suposição que no entender, não precisa ser explicitada. A suposição pode referir-se ao significado de uma palavra ou de uma frase, à informação implícita numa proposição, ou ao conhecimento de toda uma área de discussão. Essa barreira é essencialmente de caráter cognitivo, isto é, o malogro se deve à ignorância ou à falta de informação do receptor, e não à sua predisposição para interpretar o que foi dito em função das próprias atitudes mentais os malogros desta última espécie derivam de fontes complexas. Esse obstáculo é menos óbvio. Aparentemente não são claros os motivos por que a mesma informação significa coisas muitíssimo diferentes para diferentes pessoas e, muito embora se saiba que ocorrem disputas, às vezes acirradíssimas, em torno dessas coisas, tem-se geralmente a impressão de que um pouco de paciência e um pouco de simplificação, que não leva em conta três questões fundamentais. A primeira é que a recepção da informação acarreta uma dose muito maior de interpretação do que o supõe a maioria das pessoas; a Segunda se refere aos meios pelos quais se efetua a interpretação; a terceira, à extensão em que tais meios variam de uma pessoa para outra, ou até mesmo indivíduo, em diferentes fases de sua vida. Diz-se que ocorre projeção quando o indivíduo interpreta o comportamento de outro em função das próprias necessidades e impulsos conscientes; cabe ao teste projetivo pôr a nu a direção dessas necessidade. Nesse obstáculo o receptor tende a interpretar a informação de acordo com os seus desejos e os seus medos, em suma, que a interpretação desempenha um papel muito maior na recepção da informação do que se costuma reconhecer. As perdas decorrentes de uma apresentação confusa chegam a determinar a qualidade da informação contida em todos os tipos de material técnico, como também de leituras diversas. Numa mensagem pouco explícita poder interpretar dentro dos limites do texto elementos que conturbam a informação, nessa perspectiva o entendimento pode se dá pelos elementos principais que permanecerem constantes. "Não são apenas o medíocre e o inadequado que carecem de habilidade para comunicar-se."(p. 127) Inúmeros malogros na comunicação de todos os dias advêm da ausência de meios para se colocarem em contato emissores e receptores potenciais. Muitas ocasiões os comunicadores expõem suas mensagens, sejam pela mídia, congressos, palestras e outra intervenções, podemos citar até mesmo o contato do professor com o aluno na sala de aula. A maneira como se argüi o aluno ou pergunta-lhe se ocorreu alguma dúvida é uma forma de reforçar a aus6encia da comunicação, pois o mesmo pode de certa forma intimidar-se , calando-se. A seguir registraremos os episódios e análise , visando uma iluminação mais concreta desse estudo:I. QUANDO O SABER CIENTÍFICO ESBARRA NO SABER POPULAR Samantha Castelo Branco Uma cidade do interior do Piauí até poucos anos atrás não oferecia serviço ginecológico e condições de atendimento a mulheres gestantes, desde o acompanhamento dos primeiros meses de gravidez até o parto. No hospital municipal, apenas uma enfermeira era responsável por todo o atendimento. Os casos mais graves eram levados para a cidade vizinha, a qual dispunha de dois hospitais para atendimento público. Assim, o município possuía alto índice de mulheres que continuavam a ter seus bebês com as "parteiras", senhoras que durante muitos anos desenvolveram essa função na ausência de médicos e, assim, conquistaram a confiança da população. Mas o hospital do município e os postos de saúde, acabaram sendo equipados não só para realizar os partos nos procedimentos médicos atuais, como também com aparelhos que possibilitam o acompanhamento da gravidez, a exemplo do ultra-som, capazes de garantir a saúde da mamãe e do bebê até o momento do parto e após este. Contudo, ainda levando-se em conta toda a infra-estrutura hospitalar e, também, os recursos humanos (médicos e enfermeiros), a grande maioria dos partos continuaram sendo feitos com parteiras. Para reverter essa situação, a equipe médica recém chegada no município (ginecologista e obstetra) foi convidada a participar de um ciclo de palestras (em centros sociais e comunitários, residências etc.) promovido pela prefeitura. Apesar da competência e dos conhecimentos dos profissionais escolhidos, os ouvintes das palestras pareciam não se identificar com as palavras e termos técnicos dos médicos. Até porque o público-alvo, moradoras das localidades incluídas no programa de esclarecimento, em geral, eram pessoas de baixa renda e sem escolaridade. Com o término do programa, observou-se que não houve mudança no quadro e os objetivos não foram atingidos. Fazendo uma análise da estratégia utilizada pela prefeitura, constatou-se que a linguagem utilizada pelos profissionais diferia do vocabulário dos moradores dessas localidades e grande parte dos termos médicos não foram transportados para a vivência da população local. Desse exemplo pode-se extrair algumas barreiras à comunicação humana, entre elas a "presunção não enunciada". As palestras dos médicos não atingiram o público-alvo, por este não ter o nível de conhecimento que, certamente, os palestrantes presumiram. No entender dos especialistas, os termos abordados não precisavam ser melhor explicitados. A situação sugere também a "limitação da capacidade do receptor", uma vez que os ouvintes não possuíam grau de instrução/conhecimento que permitisse o entendimento das informações transmitidas pelos médicos. As duas barreiras já colocadas são facilmente perceptíveis no nível das ocorrências diárias. Contudo, existem outros problemas encontrados na comunicação humana que são mais difíceis de apreender ou menos óbvios, como destaca John Parry, em seu livro "Psicologia da Comunicação" (1972, p.107): "... só o investigador exercitado tem probabilidades de reconhecer, mas os próprios fenômenos são familiares a qualquer pessoa capaz de reflexão rudimentar". É o caso da "incompatibilidade dos esquemas", detectada, no caso acima, na confrontação entre o saber popular (observado na prática das parteiras, já comum e absorvido pela população) e o saber científico, representado pelo conhecimento dos médicos palestrantes. Pode-se também supor uma outra barreira, identificada como "intrusão de mecanismos inconscientes ou parcialmente conscientes". Acostumados com os procedimentos e vocabulário das parteiras da região, as ouvintes não se identificaram com os médicos. Explicando melhor: quando projetamos a nossa vivência sobre o comportamento de outros, acabamos por nos identificarmos com determinadas pessoas. Frente a algumas situações, é possível que rejeitemos certas informações que não se relacionem/adeqüem às pessoas ou situações com as quais nos sentimos comprometidos ou identificados, o que pode ter acontecido com os ouvintes das palestras. Já identificados com as parteiras, terminaram não considerando as informações e conselhos da equipe médica.
II. O QUE FAZER COM AS CRIANÇAS? Desireé Rabelo Os educadores e/ou comunicadores que trabalham junto às classes populares sabem que nas reuniões, cursos ou palestras sempre enfrentam um grande "estímulo competidor". Ou melhor, vários pequenos estímulos competidores: as crianças. Principalmente quando o público alvo são as mulheres, as crianças estão sempre lá: gritando, correndo chorando. Desviando a atenção do receptor e perturbando o emissor. Na teoria, a solução para esse estímulo indesejável é fácil. Basta criar um espaço alternativo, onde os voluntários cuidarão de distrair os pesquemos para que, no salão ao lado, o fluxo da comunicação transcorra em paz. Certo? Nem sempre, como descobri quando ministrava palestra para educadores populares. Eu, então, apresentava essa brilhante sugestão aos meus atentos ouvintes. Mas, eles logo trataram de corrigir-me. E contaram que, nos meios populares, essa estratégia nem sempre funciona. É que as mães estão acostumadas a fazer o trabalho de casa, a ver TV ou ouvir rádio sempre com as crianças a sua volta. Ou seja, para elas, o barulho dos pequenos não é um fator perturbador. Pelo contrário. É o sinal de que tudo está normal. Por outro lado, quando as crianças são separadas e ficam sob os cuidados de estranhos, as mães tornam-se inseguras, temerosas de que algo possa acontecer aos filhos. Portanto, a separação acaba provocando uma "tensão ambiental" maior que o ruído que existia antes (e que talvez perturbasse só ao palestrante, habituado a buscar condições ideais para seu trabalho). Confirma-se, assim, a tese do autor de que as condições ideais adequadas para receber e produzir comunicação variam de acordo com "as consideráveis diferenças individuais"(p.99) e, nesse caso, também as diferenças culturais e sociais. Concluindo, nem tudo que o manual ensina serve para todos e em todas as ocasiões.
III. HISTÓRIAS DE PESCADOR Em Mato Grosso do Sul, a cena repete-se a cada ano, em comunidades diferentes mas sempre em situações tensas: no início da piracema, época em que os peixes começam a desova que garantirá a reprodução, é proibido todo o tipo de pesca durante cerca de três meses. Para os cientistas, técnicos e agentes de fiscalização, a medida é justificada. Ela é a principal forma de garantir o repovoamento das espécies. Outras medidas ajudam a manter a população aquática estável: pesquisas minuciosas indicaram o tamanho mínimo ideal de captura de cada tipo de peixe. Por exemplo, pescando um pintado com 80 cm ou mais de comprimento tem-se a certeza de que ele já reproduziu e garantiu, no mínimo, sua reposição. Para as ciências envolvidas na questão, está tudo claro, com gráficos, tabelas e muitos PHDs envolvidos, para não deixar dúvidas. Porém, para que vive da pesca, a história é outra. Nessa época, a Policia Florestal, agentes do Ibama ou técnicos da Secretaria do Meio Ambiente promovem reuniões com o objetivo de orientar os pescadores. Devidamente instruídos, esses técnicos não têm dúvidas sobre o porquê da legislação e das restrições. E cuidam de dar o seu recado da melhor maneira.. Mas, pobre deles... O ambiente que encontram é tenso e a recepção problemática. Na cabeça dos pescadores, essas imposições soam como uma perseguição injusta e inexplicável. Há muitas gerações seus familiares pescam nos mesmos rios, até com tarrafas e redes hoje proibidas, e antes não havia nada de errado nisso. E os peixes nunca acabaram. As explicações racionais de que agora a retirada é muito maior por causa do crescimento da indústria pesqueira. e do turismo não lhes parece convincente. Muito menos o argumento sobre os prejuízos da degradação ambiental. E a confusão está estabelecida, com um preço muito alto nesse caso: autuações, prisões e mortes, em casos extremos. Sem falar no prejuízo à natureza. De acordo com Parry John, podemos detectar aí as barreiras causadas por esquemas diferentes. Aliás, na atual discussão sobre o meio ambiente podemos localizar, grosseiramente, dois grandes grupos: os daqueles cujo esquema justifica (por variadas razões) a exploração desenfreada dos recursos naturais e os daqueles que advogam o uso racional dos mesmos recursos, como forma de garantir a vida. Além disso, é possível que nessa situação de (des)encontro entre técnicos e pescadores haja uma "presunção não enunciada" dos primeiros, pela suposição de que os pescadores compreenderão e obedecerão as restrições legais. Sem citar outras dificuldades previsíveis, como o uso de termos inadequados e os mecanismos conscientes ou inconscientes de ambas as partes, dificultando ainda mais a comunicação.
IV. UM CASO REAL DE AUTO-MALOGRO COLETIVO NA COMUNICAÇÃO Elizabeth Jesumary Em uma colônia agrícola para recuperação de dependentes químicos - adictos de álcool e drogas - aconteceu um caso sui - generis de Auto - Malogro coletivo. No terceiro dia de Carnaval de 1998, a monitoria da colônia quis premiar os dependentes químicos com uma festa de Carnaval saudável, sem drogas e que os divertisse. Providenciou - se a tal festa e lá foi servido aos foliões apenas Guaraná. Acharam por bem servir o líquido inócuo em copos de whisky com pedras de gelo. Lá pelas tantas da noite, a embriaguez era geral : todos estavam bêbados e se comportavam como tal. Enganar outro ser humano é uma ação que pressupõe um descompasso de informação, mas enganar a si mesmo parece ser uma impossibilidade lógica. É como convencer o indivíduo a não saber o que, de fato, ele sabe. Os adictos se auto - enganaram com tamanha eficiência, por não pretenderem fazer isso, e com tanta eficácia, por terem conseguido um ato perfeito, voluntário, não planejado de auto - engano coletivo. Sem o uso sequer da mais poderosa arma de Malogro da esfera humana: a linguagem. Somente o tilintar das pedras de gelo no copo de whisky, o conteúdo líquido de coloração sugestiva, as músicas, o medo de possível recaída, a influência confirmatória do coletivo, etc... etc... acionaram o gatilho da "MEMÓRIA EUFÓRICA" O Auto - Engano baseado na manipulação de contra informação de fora para dentro do indivíduo é uma ramificação menor e secundária no repertório do Auto - Malogro. O tronco principal é constituído pelo Auto - Engano Intrapsíquico, ou seja, aquele em que a mente da pessoa consegue de alguma forma, manipular - se e iludir - se a si própria e contagiar confirmando o Auto - Malogro do grupo. "As pessoas encaram a vida com expectativas e padrões de reação que variam, levando-as a construir imagens contrapostas do meio e a interpretar os fenômenos de maneira correspondente. Tais influências operam em todos os níveis, bioquímicos, nervosos, preceptivos, conceituais e nos níveis das atitudes. A recepção da informação acarreta uma dose muito maior de interpretação do que o supõe a maioria das pessoas. A percepção representa uma transação entre o ser humano e o seu meio".
V. KIT COMUNICAÇÃO SEM PRESUNÇÃO Fátima Caracristi Uma boa exemplificação, extraída das estratégias políticas do governo brasileiro, para duas das sete barreiras à recepção humana, conceituada por John Parry, autor do livro Psicologia da Comunicação, como "limitação por capacidade do receptor" e "presunção não enunciada", é tomada do projeto do governo federal intitulado "kit escola". As barreiras, segundo Parry, servem apenas como determinadoras de origens de mal entendidos específicos que invalidam o argumento. Tomando como exemplo, o plano de promoção à educação promovido ainda na gestão do atual ministro da Educação, Paulo Renato e Souza, percebemos que ocorreu uma perda significativa da proposta inicial do argumento. O projeto em questão, tinha como objetivo auxiliar o processo educativo, principalmente nas áreas geográficas mais distantes do Brasil, como o interior do Norte e Nordeste, através do uso da TV e do vídeo. A idéia era equipar cada escola pública, com o que se convencionou a chamar "kit escola", composto por vídeo, antena parabólica, televisão e fitas, para conseguir uma retransmissão de conteúdos e idéias que se prestassem a auxiliar o trabalho dos professores, estimulassem a percepção dos alunos sobre as diversidades sócio-políticas do país e atendesse, por fim, através do uso da tecnologia de ponta, à demanda por um sistema de ensino mais condigno com as necessidades emergenciais já detectadas. Como tratava-se de uma ação política, num tempo recorde, as escolas das áreas mais distantes do Brasil, inclusive do interior do Nordeste e das regiões ribeirinhas do Amazonas receberam os equipamentos e muito grande foi a repercussão na mídia nacional sobre a novidade do projeto. O curiosos é que, do mesmo modo, em tempo recorde, as televisões e os vídeos, que realmente foram distribuídas nas escolas e que, num primeiro momento, serviu de contentamento para professores e alunos e de eficiência, para o governo, não surtiu o efeito esperado por um único motivo: os professores, muitos, mal alfabetizados, não possuíam o domínio e técnica de manipular os equipamentos eletrônicos. Outro detalhe que, também, pode servir como exemplo para a barreira de comunicação conceituada de "presunção não enunciada", apresenta-se no momento em que embora os vídeos trouxessem, como todo equipamento eletrônico, manual de instrução, este também não foi utilizado pelo fato de estar escrito em inglês, um idioma estranho ao público ao qual se destinou. Este exemplo em que destacamos as duas barreias à comunicação humana é elucidativo para provar que mal-entendidos específicos originados do desvirtuamento no processo comunicacional pode gerar fracassos, gastos desnecessários e frustração coletiva.
VI. O RUÍDO DO MEDO Rosa Nava
Entre casos de completo mal-entendido, ou situações em que o receptor atribui à mensagem um significado diverso daquele pretendido pelo emissor, há um que se tornou famoso em todo o mundo e que não se enquadra em apenas uma das sete barreiras enumeradas no texto de John Parry, em Psicologia da Comunicação. Refiro-me a Orson Welles (1915-1985) que aos 22 anos, em 1938, aterrorizou a América do Norte com uma apavorante radionovela chamada A Guerra dos Mundos. O mal-entendido resultou em fama instantânea ao futuro autor, diretor e ator principal de Cidadão Kane (Citizen Kane) estreado a 1ş de maio de 1941 no RKO Palace de Nova York, considerado uma obra-prima do cinema. Mas, nosso foco de análise está centrado em A Guerra dos Mundos. A radionovela, tão popular nessa época, dramatizava a invasão da Terra por marcianos. Welles elaborou a apresentação da história incluindo personagens numa trama comum, envolvidos como testemunhas. O formato de programa diferenciava-se das radionovelas comuns. Apresentava-se como um noticiário. Colocava atores equiparados aos ouvinte. Assim, em dado momento a rádio ouvida pelos radioatores tornava-se a rádio do público, a mudança transformara o roteiro em notícia extra, ou comunicado urgente. O relato detonou uma onda de medo e terror que se espalhou pelo país. Uma simples radionovela transformou-se em onda de pânico, o que nos levaria a incluir esse exemplo entre as barreiras chamadas de intrusão de mecanismos inconscientes ou parcialmente conscientes. O medo tornou-se um afeto potente na determinação da percepção e pensamento dos receptores. E podemos concluir como certa a afirmativa de que a interpretação surge como fator determinante no entendimento da mensagem e em sua análise, ou decodificação. O receptor tende a interpretar a informação de acordo com seus desejos e os seus medos. Por outro lado, se Welles agiu propositalmente, mesclando os formatos de produção (noticiário/novela), provocou uma reação no público receptor como apresentação confusa. As falas do roteiro em determinado momento, apresentaram-se como informações transmitidas por um locutor-repórter, grave e tão alarmado quanto poderia, para impressionar os ouvintes. Dúbio em sua forma, o programa possibilitou um ruído inconveniente, se bem que histórico, ainda que planejado. Um outro exemplo de ruído por distração na classificação de Parry encontramos a ironia e sagacidade de Jô Soares produziu um texto exemplar de uma das barreiras à comunicação. Nesse caso a permuta de informação e experiência tem como entrave uma suposta ignorância do meio de comunicação: a falta de familiaridade com o meio lingüístico. Publicado pela revista Veja, um hipotético diálogo telefônico entre os presidentes do Brasil e da Argentina, são "autoridades de dois países forcejando por discutir um tópico de interesse comum". Vale a pena ler. VII. TECNOLOGIA EMUDECIDA Betania Maciel de Araújo Esse episódio se passa na aldeia indígena Xacriabá, localizada nos arredores da cidade de Januária, Minas Gerais, no caminho de Montes Claros. A comunidade é organizada sob a liderança indígena ( cacique) e os outros membros indígenas de origem lingüística Macro Jê, comumente chamados de tronco Jê, faz parte hoje dessa comunidade etnicamente diferenciada a estrutura organizacional mantida pela FUNAI (Fundação Nacional do índio), órgão nacional oficialmente comprometido com a questão indígena, principalmente à assistência às comunidades. As professoras contratadas do PI (Posto Indígena), possuem uma horta caseira atrás da escola, onde plantavam entre outras verduras o tomate, para evitar a contaminação de pragas. Nessas pequenas plantações, utilizavam agrotóxicos de alto poder químico contra esse mal, atividade muitas vezes seguidas pela intuição e curiosidade, não havendo orientação profissional para essas aplicações, que objetivava o fim das pragas. O uso indevido, veio causar transtornos, como problemas respiratórios, diarréia, enjôos e um mal estar generalizado em alguns indivíduos, principalmente nas crianças que consumiam esses produtos. Depois de uma análise da situação, constatou-se que esse mal ocorrera devido ao uso inadequado de agrotóxicos. A solução era utilizar os métodos naturais que os indígenas desenvolviam em suas plantações para auto sustentação, no caso específico do tomate. A prática era a seguinte: Para cada pé de tomate, plantava-se ao lado uma erva da região, denominada "pega bicho". Acreditavam e de fato acontecia que as pragas atacavam as ervas, ao invés do tomate. Deixando assim, completar o ciclo de crescimento e chegar a colheita. A comunidade indígena foi convocada para passar essa experiência aos funcionários do PI. Bom, no final os indígenas não conseguiram comunicar suas pesquisas de forma persuasiva, fazendo com que os funcionários em sua maioria não aderissem às tecnologias nativas de combate às pragas do tomate. Funcionários do PI, não aderiram a essas técnicas continuando com as mesmas técnicas peculiares de sua cultura, ou seja a utilização de agrotóxicos. O fracasso da comunicação, acarretou um não entendimento, devido a limitação da capacidade do receptor. Os funcionários foram incapazes de absorver e reconhecer as técnicas naturais de combate à praga, por subestimar o conhecimento não científico dos nativos, outra barreira podemos identificar como Intrusão de Mecanismos Inconscientes ou Parcialmente Conscientes, a não identificação de técnicas primitivas não eram entendidas pelas pessoas que não estavam intimamente relacionadas a elas, não acreditando que essas técnicas poderiam dar resultado positivo no combate às pragas.
VIII. TITANIC Daniel Galindo</P> Talvez, o maior sucesso de bilheterias de todos os tempos possa ser visto como muito mais que uma imensa nave a naufragar diante de olhares fixos na tela, embalados pelo som intermitente de choro e porque não ao som de narinas que fungam uma ou outra lágrima que escorre pelas faces da moçada. Afinal um grande amor não pode ou não deve terminar assim... Contudo, Titanic tem proporcionado muito mais que bilheteria e lucro. Tem proporcionado até mesmo incursões pela filosofia, sociologia e a psicologia social, isto sem falar da engenharia e outras áreas do conhecimento humano, desafiando a compreensão do fenômeno que marcou e tem marcado várias gerações, pois o resgate histórico sem dúvida alguma tem alimentado um público cada vez maior e interessado na compreensão deste gigantesco desastre. Diante de tal cenário, fiquei curioso para entender os aspectos comunicacionais envolvidos nesta história. Logicamente não estou me referindo a produção cinematográfica e sua rica concepção estética , mas ao fato ocorrido e aos procedimentos comunicacionais segundo as barreiras mencionadas por J.Parry. Vamos aos fatos, após 04 dias da partida em pleno domingo pela manhã quando tudo aparentava calma o telégrafo sem fio recebia uma mensagem vinda do vapor "Caronia" : Capitão, Titanic- navios direção oeste informam aparecimento várias massas de gelo entre 42 graus norte e 49 a 51 oeste. Saudações Barr. Em seguida o telegrafista Bride com os receptores marconi aos ouvidos , fazia contas e não respondeu ao navio "Californian" que estava em sua proximidade e insistia em comunicar-se com o Titanic, apesar da insistência do "Californian" em comunicar a existência de três icebergs , o telegrafista nem ao menos registrou tal informação, por volta da uma e meia da tarde a terceira mensagem cruzava os ares vinda do navio "Baltic" prevenindo sobre os blocos de gelo na sua esteira. Aí o nosso amigo Bride fez chegar a informação ao capitão que passeava no convés acompanhado por duas damas, o capitão mostra a mensagem ao diretor da empresa responsável pelo Titanic, colocando-a em seguida em seu bolso , comentado com as duas senhoras a respeito dos icebergs, retoma em seguida o seu passeio. A noite o segundo oficial foi substituído na ponte de comando e já haviam chegado pelo menos cinco avisos pelo telégrafo sem fio sobre a presença de blocos de gelo, contudo os oficiais esperavam chegar à zona do gelo apenas duas a três horas depois, novamente na cabine do telégrafo sem fio o "Californian"comunicava : "Olá colega, paramos aqui. Estamos cercados de gelo. O Titanic : "Espere, não interrompa. Estou em comunicação com o Cabo Race, e vocês estão atrapalhando os sinais". Depois disto ocorreu o maior desastre da história , tão bem reproduzido por Hollywood , porém ainda vamos ter mais duas situações de comunicação , O navio "Virginian" ouve um pedido vago e confuso de socorro e mais nada. O "Carpathia" chega a tempo de avistar a luz verde do barco nş 2 e resgata os sobreviventes, contudo o "Californian" avista os foguetes e como o telegrafista adormecera e não recebera os sinais de telegrafo não se tomou nenhuma providência. Acredito que temos aqui as seguintes situações : Presunção não enunciada- Jamais afundaremos, porque então preocupar-se com os sinais ou com eventuais "bloquinhos de gelo"? Incompatibilidade de planos- estamos em outra, nosso navio apresenta concepção, recursos, tecnologia e gerenciamento distinto destas pequenas embarcações que insistem em nos informar, O receptor ignora o emissor pois considera que este não está usando o mesmo código de referência , é como se estivem falando uma outra língua, afinal "eles não tem o mínimo conhecimento do que é isto aqui em termos de segurança e arroubo tecnológico". Distração- o operador estava preocupado em fazer suas contas e até o capitão estava mais interessado em seu passeio pelos convés na companhia de duas damas, enquanto a mensagem repousava em seu bolso. Apresentação confusa- tinham sinais de luzes ( foguetes) mas não tinham sinais de radio , podendo também entrar aqui a presunção anunciada "talvez eles estejam apenas dando uma festa" afinal eles jamais afundariam. Limitação da capacidade do receptor- ignorou a mensagem e ainda continuou a comunicar-se com outro receptor sem ao menos preocupar-se na decodificação da mensagem recebida, considerando-a como um ruído. IX. TORCEDORES DE UM MESMO TIME SE DESENTENDEM, DEPOIS QUE O TIME COMEÇA A PERDER Djalma Paz Para este caso podemos encontrar duas barreiras: - incompatibilidade de esquemas, ou seja, para um torcedor a derrota é um resultado previsível e portanto faz parte de esquema em que os resultados, quaisquer que sejam, não são encarados como algo impossível, enquanto que para outro, mais fanático e menos tolerante, perder é algo inadmissível, que não faz parte de modo algum dos seus planos, daí surgem as insatisfações, a revolta e o descontrole. - presunção não enunciada, ou seja, os torcedores não conseguem entender o desempenho do time que perde, porém não em levam em consideração a situação pela qual passa o time, o que pode ser uma má fase, enquanto que os outros times estão em alta. X. UM BEBÊ QUE AINDA NÃO FALA CHORA ININTERRUPTAMENTE E A MÃE NÃO CONSEGUE ENTENDER O QUE ELE QUER Mais um caso em que podemos constatar duas barreiras, pois, apesar de toda a ligação íntima entre os dois seres e da conseqüente e aparente facilidade com que, muitas vezes, a mãe compreende o bebê, há momentos em que a criança se comunica através de um choro tão intenso (apresentação confusa) que nem mesmo a mãe consegue entender (limitação de capacidade do receptor). XI. EM UMA CONVERSA PELO TELEFONE CELULAR UMA PESSOA NÃO CONSEGUE ENTENDER O QUE A OUTRA ESTÁ FALANDO Nos parece um caso típico de ausência de recursos, pois na maioria dos casos as ligações são constantemente interrompidas e até mesmo canceladas por causa de interferências externas, como pouco alcance, por exemplo. Mesmo o problema ocorrendo num dos aparelhos, a ausência de recursos continua prevalecendo, pois um defeito, por mínimo que seja, sendo de ordem técnica, neste caso, é o suficiente para dificultar ou mesmo impossibilitar a comunicação.
XII. UMA PESSOA RECEBE EM SEU PAGER UMA MENSAGEM ENDEREÇADA PARA UM OUTRO NOME Seria um caso típico de distração, pois para enviar a mensagem o operador precisa estar atento ao número correspondente do aparelho que vai receber o sinal. Se o operador estiver distraído, basta apenas a mudança de um único número para que a mensagem seja enviada para a pessoa errada. Levando-se em conta o ambiente em que o operador trabalha, essa distração pode ser decorrente de uma tensão interna, pois é um serviço que exige total atenção e concentração, já que qualquer falha pode ocasionar equívocos no envio das mensagens, não somente em relação ao próprio receptor, mas também ao conteúdo enviado.
XIII. EM MEIO A UM CONGESTIONAMENTO UM REPÓRTES DESCREVE UMA CENA, ENQUANTO O CINEGRAFISTA MOSTRA UMA OUTRA IMAGEM NÃO CORRESPONDENTE Se não existe um recurso, como um headphone capaz de fazer com que o cinegrafista escute o que o repórter está dizendo, então podemos dizer que está havendo ausência de recursos de comunicação. Por outro lado, se o cinegrafista está usando um aparelho de escuta e ainda assim há problemas de comunicação, podemos atribuir isto a uma possível distração, pelo fato da reportagem estar num local (congestionamento) onde há muitos estímulos competidores
XIV. CIENTISTAS X JORNALISTAS Boanerges Lopes Filho Os episódios acontecem. São problemas que afetam a comunidade científica e os meios de comunicação freqüentemente demonstram a diferença de linguagem que existe em muitos momentos entre pesquisadores e jornalistas e que acabam se refletindo diretamente na sociedade, através de informações equivocadas. Verdadeiras barreiras à comunicação humana que dificultam o entendimento de algumas evoluções que se estabelecem no campo da Ciência ou que reforçam preconceitos e alimentam o surgimento que envolvem incompatibilidade dos esquemas e presunção não enunciada. O primeiro episódio aconteceu através de um diálogo entre um assessor de comunicação e um biólogo reconhecido internacionalmente, ambos ligados a uma renomada instituição de terceiro grau.
XV. ESPECIALISTA NO ASSUNTO O segundo episódio, outro papo por telefone, também um tanto complicado..........dizia o pesquisador ao telefone quando cheguei; Lembrei-me de imediato que tinha ficado horas explicando para a repórter o que era hepatite, repassando dados, antes da entrevista com o pesquisador que na verdade era só arrematar a matéria com a opinião de um especialista no assunto. A vontade depois desta situação era de sumir no espaço. Responsável por uma das mais interessantes pesquisas sobre a realidade que envolve o relacionamento entre pesquisadores e jornalistas no Brasil contemporâneo, desenvolvida em 94 na capital pernambucana, a subdivisa da Ciência e Meio Ambiente do Jornal do Commércio, Fabiane de Oliveira tem uma posição bem clara sobre os episódios: "Se por um lado, a disseminação do jornalismo científico nos últimos anos ampliou o leque de opções para o grande público, por outro lado, suscitou problemas entre cientistas e jornalistas. Os cientistas temem que a objetividade e o imediatismo jornalísticos impliquem em demasia ou deturpem a complexidade de seus trabalhos . Os jornalistas, por sua vez, costumam dizer que os cientistas se mantêm refratários e relutam em fornecer informações". Podemos apontar ainda a deficiência na formação acadêmica dos futuros profissionais, além da complexidade que envolve os sistemas que sustentam as respectivas áreas como fatores que também contribuem em grande parte para a dificuldade de reversão do quadro atual. |
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