Mulher e Ciência: Questões e Problemas da Inserção Feminina na Pesquisa Científica Identificados Pela "Agenda Setting" de dois Periódicos Científicos Internacionais.

Betania Maciel

INTRODUÇÃO


Existe um pensamento generalizado de que não houve um número significativo de mulheres no mundo científico. Em toda história da humanidade, os grandes descobrimentos sempre ficaram a cabo dos homens. As mulheres nunca foram protagonistas das grandes invenções. Poucas mulheres são reconhecidas, mundialmente, como por exemplo, Madame Curie.

Podemos constatar na prática que o acesso das mulheres às posições científicas precisa ser realçado. Este destaque é dado, apenas, ao homem. Assim através da história, a ciência tem uma imagem especificamente masculina.

A história completa deve ser contada.

É conveniente que se divulgue, que se torne conhecido o desempenho da mulher no desenvolvimento científico, que se descrevam os entraves por elas encontrados face à discriminação sempre presente em suas atividades científicas.

A omissão da mulher no relato histórico da ciência é uma lacuna, que proporciona um panorama incompleto da realidade.

Nosso estudo tem como objetivo principal analisar os temas selecionados pela agenda-setting e publicados nos periódicos internacionais Science e Nature, durante a década de 1990.

Considerando que são concretas as notícias veiculadas nas publicações, nossa preocupação é: refletem elas a realidade da problemática das mulheres cientistas, naqueles países aos quais estão vinculadas?

A pesquisa revela que fatores detectados e argumentos apresentados pela análise dos diversos conteúdos das publicações têm grande relevância no mundo científico feminino.

Em nossa busca de dados priorizamos os temas que envolvem a mulher especificamente no mundo da ciência. O seu trabalho, sua posição de comando, sua luta pela paridade de direitos, na ocupação de cargos de chefia, na igualdade de salários, na valorização de suas pesquisas, nas condições que lhes são oferecidas, enfim tudo o que se refere à mulher na ciência, inclusive os movimentos coletivos correlatos foram pesquisados.

Colhemos todas as notícias e artigos relacionados à participação da mulher como pesquisadora científica, constantes das revistas Science e Nature, no triênio 93, 96 e 99.

Nesta amostragem pudemos traçar um perfil de uma década de publicações.

Essas revistas mundialmente conhecidas no meio científico possuem obviamente critérios utilizados em sua “agenda-setting”, para selecionar as notícias publicadas nesse período nas seguintes áreas: Engenharia, Química, Física e Astronomia, Ciências da Terra, Matemática e Computação, Biologia, Agricultura e Veterinária, Ciências da Saúde e também nas áreas Multidisciplinares. Utilizamos como método à análise de conteúdo para selecionar os temas e questões mais recorrentes nas citadas áreas de pesquisa.

Em seguida verificamos a adequação dos critérios da “agenda-setting” para revelar os problemas da inserção da mulher na ciência. Esta eventual correspondência foi realizada mediante entrevistas e estudo aprofundado das mobilizações que as mulheres vêm realizando, como pesquisadoras individuais, em Universidades, Instituições de pesquisa, Empresas e Associações empresariais de pesquisa e outras vias de desenvolvimento científico, onde se pode registrar a presença de mulheres, as quais desde a década de 70 buscam participar da produção de ciência e atuar em outros âmbitos sociais, no Brasil e na Espanha.

A tese consta de duas partes específicas:

A primeira parte apresenta uma visão panorâmica da mulher cientista nos séculos XVII, XVIII e XIX, buscando aspectos históricos, editoriais e econômicos. No primeiro capítulo enfatizamos o papel da mulher através das leituras de Rousseau, Michelet, Bourdier, Delany e outros escritores clássicos que se detiveram em apreciações sobre problemas da mulher na sociedade, sobre a misoginia no mundo intelectual de então.

Dedicamos o segundo capítulo aos estudos sociais da ciência: a perspectiva do gênero e a constituição de um novo paradigma e inevitavelmente, o estudo sobre o feminist standpoint: Uma epistemologia a partir do ponto de vista feminino foi destacada.

No terceiro capítulo nos detivemos a enfocar a realidade brasileira e abordamos também a situação da mulher espanhola.

Observamos problemas relativos à mulher como pesquisadora científica, a sua transformação qualitativa através do tempo e estabelecemos um paralelo, dentro deste enfoque, entre a mulher brasileira e a espanhola.

Nos demais capítulos discorremos sobre o feminismo, sufragismo e abordamos novamente o aspecto histórico da mulher na ciência.

Na segunda parte constam os capítulos IV a VIII.

O quarto capítulo trata de uma exposição de uma pequena amostra do universo das mulheres cientistas. Expomos debates e depoimentos delas próprias e de simpatizantes. Constam também entrevistas estruturadas e semi-estruturadas com cientistas dos principais projetos de pesquisa do Brasil e da Espanha, identificados a partir da literatura.

No quinto capítulo traçamos um perfil das Revistas Science e Nature e realizamos um estudo aprofundado sobre a validade de um agenda- setting. A análise foi elaborada com fins de esclarecer a pesquisa e também acrescentar aos estudos de teoria da comunicação um material passível de ser consultado futuramente. O corpus e os procedimentos analíticos estão apresentados também nesse capítulo.

O sexto capítulo trata de expor os procedimentos analíticos realizados para a obtenção da busca dos resultados

No sétimo capítulo realizamos, através de gráficos e tabelas, o mapeamento do conhecimento obtido, análise das notícias e artigos relativos a esta questão, publicados nas revistas Science e Nature, nos anos de 1993, 1996 e 1999.

Inserimos também o mapeamento do conhecimento obtido nas duas partes da tese, objetivando a verificação dos temas e questões recorrentes detectados pela análise de conteúdo, visando a repercussão no universo das mulheres cientistas brasileiras e espanholas.

Na conclusão da pesquisa retomamos os resultados principais de nosso trabalho, de acordo com a proposta inicial. Nessa ocasião pomos em evidência nosso pensamento e nossas idéias sobre o tema estudado.

É nossa intenção que este estudo seja também um resgate à contribuição das mulheres ao campo da ciência. No decorrer da leitura pode-se optar pela escolha apenas do enfoque individual, geralmente unido aos casos de especial relevância como se encontra discriminado na Parte I – mulheres cientistas famosas – ou também, deter-se no estudo das mulheres como grupo, na linha do pensamento feminista.

Este estudo saca a luz das contribuições que as mulheres fizeram à ciência desde o século XVII e em particular, a partir da década de 70.

Como ponto de partida, impõe-se uma reflexão epistemológica. É importante mostrar a experiência das mulheres nesta parcela da realidade tão masculina como é o mundo das ciências. Pode parecer secundário o tema, dado o baixo número de mulheres envolvidas neste campo e o caráter das contribuições. Talvez não se faça tanta referência a mulheres na ciência e a sua história porque a visão androcêntrica considera natural que seja assim.

Este estudo enfoca também o estudo da história da ciência, sob o aspecto de gênero. O marco teórico dos estudos de gênero questiona, precisamente, a perspectiva androcêntrica que, na construção do saber, concede um protagonismo exclusivo à experiência masculina. Nos estudos de gênero considera-se a existência de homens e mulheres no mundo, enfatizando a parte marginalizada e desconhecida, a saber, a experiência acumulada das vidas das mulheres. A partir desse novo sistema de referência surgem então novas interrogações, convertendo-se em exemplos importantes não valorizados, anteriormente. O saber alcançado a partir da diversidade de experiências femininas constitui um enriquecimento que melhora e completa nosso conhecimento da realidade histórica.

À Espanha, país onde foi realizada esta pesquisa devido à similaridade que comporta em relação ao Brasil no que tange à participação das mulheres na sociedade em geral, dedicamos um capítulo onde expomos as linhas de trabalho e a produção elaborada a partir dos estudos de gênero e observamos que essa produção tem crescido nos últimos anos, de maneira impressionante, sobretudo por causa das organizações de Seminários, Institutos Universitários e Centros de Investigação sobre a mulher, surgidos na maioria dentro das universidades, na década de 70. O desenvolvimento é menor em torno das consideradas ciências “duras”, como física, matemática e química considerando que as notícias são concretas, embora o número de pesquisadoras e pesquisadores, assim como os trabalhos dedicados à área de relações de gênero e ciência tenha aumentado .

No itinerário percorrido através dos espaços, dos tempos e das idéias da história da ciência, é importante levar em consideração que qualquer desvio da distribuição média estatística que estabelece um equilíbrio entre o número de homens e mulheres na população encerra uma característica a analisar e que também as ausências manifestadas possuem contribuições significativas ao conhecimento histórico.