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VIII COMPÓS Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação Belo Horizonte, 1999
A BELA É FERA: A passagem do oculto consentido, à visibilidade contestada.
Betania Maciel de Araujo
RESUMO O texto discute as principais transformações que se processaram em relação às mulheres na busca de sua identidade e seu espaço no meio intelectual/tecnológico. Com esse objetivo são abordadas as relações econômicas, jurídicas, políticas, familiares, e psicológicas, que compõem o espírito feminino, fazendo referência às diversas fontes bibliográficas relacionadas ao tema. No primeiro momento, faremos uma viagem pelo tempo, buscando resgatar no passado a participação da mulher dentro da sociedade. No segundo momento, as questões abordadas serão: Mesmo sem o poder, como as mulheres ganharam influência nas redes, durante tanto tempo dominadas pelos homens? Conseguiram as mulheres passar do oculto, que lhes é permitido, à visibilidade, que lhes é contestada? Resgatar o silêncio e o não dito, através da viagem pelo passado, no século XVIII e XIX, para buscando esclarecer a participação da Mulher na organização social e seu interesse primeiramente pela igualdade dos sexos e mais tarde a busca pela diferenciação. Considerando as observações de escritores clássicos, faremos essa viagem primeiramente, tentando compreender como começaram essas indagações e/ou necessidades. Para Michelet, a "Mulher" seria, Corpo reflexo da alma... Bastaria à mulher ser bela e asseada para educar harmoniosamente a filha e administrar uma família. Ela conservaria então o "aveludado da alma", escaparia à vulgaridade e à fealdade. O amor poderia reinar sobre a terra, abolir as diferenças, suprimir a luta de classes e de sexos. No entanto, as mulheres no século XIX movem-se mais do que se pensa. Participam das migrações, camponesas vindas à cidade como domésticas ou costureiras, burguesas médias contratadas como preceptoras, não raro muito longe de seu país. Elas viajam e (às vezes). O mundo muda, modificam-se as fronteiras, também entre os sexos. Em todas as suas obras mais importantes, Rousseau expõe idéias de feminilidade que não só se opunham aos feministas cartesianos, como Poulain de la Barre e Mary Astell, como também instauravam uma ideologia de diferenciação sexual que exerceria enorme influência nas elites sociais que tomaram o poder durante a Revolução Francesa, e sobretudo depois, no decorrer do século XIX. Embora fosse um pensador democrático no que tange à política, quando se tratava de gênero as idéias de Rousseau mostravam-se profundamente reacionárias. O que tomava as idéias de Rousseau acerca de gênero tão significativas é que ele as vinculava às suas idéias sobre política. Em sua Lettre à m. D’Alembert sur les spectacles [carta ao sr. D'alembert sobre o teatro], de 1758, Rousseau atribuía às mulheres a culpa por muitos dos problemas da França do Antigo Regime, observava como algumas mulheres tomaram-se ativas na vida política e cultural e argumentava que a sua participação havia arruinado os assuntos públicos. "Não existe boa moral para as mulheres fora de uma vida retirada e doméstica", insistia Rousseau. "Afirmo que os tranqüilos cuidados com a família e com o lar constituem o seu quinhão, que a dignidade do seu sexo consiste na modéstia." Ao tomarem-se políticos poderosos na esfera pública, as mulheres se conspurcaram; pior, suas maneiras brandas se disseminaram por toda a sociedade, transformando em poltrões uma elite aristocrática de guerreiros. "incapazes de se transformarem em homens, as mulheres nos transformam em mulheres", afirmou Rousseau. Esse pensamento também pode ser considerado significante quando se estende ao processo de busca de conhecimento intelectual e também na produção de ciência, quando discutiremos mais tarde. No pensamento do Iluminismo, era lugar-comum a idéia de que o papel e a posição das mulheres se aprimoravam com o progresso da civilização. Todos sabiam que uma aristocracia que minimizava as artes militares em favor de interesses mais cultos, como as maneiras à mesa, a conversação, a música e a literatura, era mais civilizada do que uma classe de guerreiros. Com efeito, no século XVIII, o modelo mais velho e mais viril do cortesão fora subjugado pela corte, e o fidalgo era menos um guerreiro que demonstrava sua virilidade do que um "cavalheiro sincero" (honnête homme) que se orgulhava de seu trato social com as mulheres. O gênio de Rousseau residiu em identificar a feminização das elites masculinas como o fator central para explicar a corrupção da vida política. Em 1761 e 1762, ele apresentou uma proposta mais positiva, conquanto não menos perturbadora, para o papel da mulher em uma sociedade francesa revitalizada. Em seu clássico tratado sobre a educação, É Emílio, bem como em seu romance romântico popular, Júlia, ou a nova Heloísa, mostrou o que supunha ser uma idéia superior das relações de gênero. "Toda a educação das mulheres deve ter os homens como referência", preconizava em Emílio. "Agradar aos homens, ser úteis aos homens, fazerem-se amadas e honradas por eles, educá-los quando jovens, zelar por eles quando já crescidos, aconselhá-los, consolá-los, tornar suas vidas agradáveis e doces - estes são os deveres das mulheres de todos os tempos, e deveriam ser ensinados desde a infância." Aquilo que a "dama" autora de Female hights vindicated identificara como um velho preconceito, Rousseau transformava em uma filosofia de vanguarda. Há anos os pesquisadores vêm se mostrando perplexos com o fato de que muitos dos mais ardentes admiradores de Rousseau tenham sido mulheres e feministas.5 Havia uma tendência a ler Rousseau como um polemista, cujo estilo e objetivos gerais deveriam ser admirados, mas que se deixava arrebatar em excesso pelos próprios argumentos.6 Esses leitores podiam louvar a integridade de Rousseau, bem como sua descrição utópica das relações de gênero, sem acreditar literalmente em suas palavras. Em um mundo aristocrático que não havia ainda separado completamente o trabalho da casa, nem a esfera pública da esfera privada, as noções relativas a um ideal de vida doméstica feminina podem ter parecido renovadoras e subversivas, e suas implicações não foram percebidas como o são hoje. Não obstante, havia alguns livros da Querelle des Femmes que desafiavam frontalmente Rousseau. A enciclopédia de Aublet o condenava por "querer situar as mulheres na classe dos animais domésticos". Em 1779, um livro belga atacou a caracterização que Rousseau fez de Sophie, a personagem feminina de Emílio, assegurando que as mulheres que recebessem a mesma educação dos homens poderiam alcançar grandes realizações. De fato, as idéias de Rousseau sobre gênero são menos misóginas do que fundamentalmente ambivalentes. seu temor do poder feminino no Antigo Regime deriva de um reconhecimento da autoridade das mulheres, bem como de sua influência e de sua similaridade com os homens. "Em tudo que não diga respeito a sexo, a mulher é homem", afirma Rousseau em uma passagem famosa de Emílio. "Ela tem os mesmos órgãos, as mesmas necessidades, as mesmas faculdades. A máquina é construída da mesma maneira." Não é por acaso que essa passagem, como tantas outras em seus livros, soam como expressões extraídas da literatura da Querelle des Femmes. Afinal, no início de sua carreira, provavelmente durante a década de 1740, Rousseau começara a escrever um ensaio sobre as mulheres, que imitava, de forma clara, obras como a Galerie des femmes fortes, de Le Moyne, retratando "as mulheres privadas de sua liberdade pela tirania dos homens". E considerava condenável essa privação da liberdade e preconizava a participação da mulher na vida pública: "Encontramos no outro sexo modelos tão perfeitos [quanto os homens] em todos os tipos de virtudes cívicas e morais". Se as mulheres tivessem sido tão ativas quanto os homens na gestão dos governos, prosseguia Rousseau em sua argumentação, Os impérios políticos teriam sido tanto mais gloriosos. Durante a década de 1740, Rousseau foi também o secretário particular de madame Dupin, que então escrevia, ela mesma, um extenso livro sobre as mulheres, no qual idealizava a tradição das amazonas e de Joana d'Arc, no estilo polêmico de um típico tratado da Querelle des Femmes. propósito deste livro é examinar a sua origem, o seu caráter e os seus efeitos." Embora o livro jamais tenha sido editado, centenas de paginas manuscritas sobreviveram até nossos dias, muitas delas com a letra do "Hoje, continuamos a ver no mundo", ditou madame Dupin para Rousseau, "uma desigualdade opressiva entre homens e mulheres, que não parece fundamentada na natureza ou em nenhuma outra verdade. O próprio Rousseau. Conquanto não se possa dizer até que ponto ele estava de acordo com a sua patroa, a existência desse livro constitui, em si mesma, uma prova de que Rousseau, se achava profundamente engajado nas polêmicas feministas do século XVIII. Desse modo, há boas razões para conjeturar que o pensamento de Rousseau acerca do gênero desenvolveu-se a partir de uma posição inicial próxima da dos feministas da Querelle des Femmes. Assim como seu relacionamento com os grandes filósofos do Iluminismo, aos quais se juntou para mais tarde contrapor-se a eles - basta pensar no seu turbulento incidente com Voltaire, por exemplo -, sua filosofia de gênero pode ter seguido um caminho semelhante. Apoiando Rousseau, havia numerosos escritores menos famosos, que parecem ter vivido trajetórias intelectuais semelhantes. Entre aqueles representado, estava Pierre-Joseph Boudier de Villemart, cujo Ami des femmes foi publicado em duas edições francesas distintas (em 1759, e Le nouvel ami des femmes, em1779), traduzido para o inglês e até mesmo publicado na América. Boudier via a si mesmo como um escritor pró-mulher, na tradição de Poulain de la Barre. Ele admirava as mulheres capazes de grandes realizações, e sua edição de 1779 incluía uma lista, em ordem alfabética, das trezentas mulheres francesas que mais contribuíram para a vida pública. Mas o feminismo de Boudier tinha limites. Embora as mulheres houvessem realizado progressos, o fizeram à custa dos homens, dizia ele. Boudier explicava que, entre as classes da elite na Idade das Trevas, os sexos eram necessariamente segregados. Como as guerras eram incessantes, e travadas por exércitos particulares de aristocratas, era natural que os guerreiros caracterizavam a maior parte da vida aristocrática masculina. Pouco a pouco, as qualidades viris, como a força física, passaram a distinguir os homens das mulheres. Esse rumo se alterou durante o Renascimento, quando o Estado monárquico impôs sua autoridade sobre a sociedade feudal, segundo Boudier, as guerras tomaram-se menos freqüentes e os exércitos eram controlados pelo rei, passando a ser cada vez mais formados por mercenários. Em suma, os homens da aristocracia ainda lutavam nas guerras e estimavam os altos postos militares, porém já não era a guerra que caracterizava a vida aristocrática masculina. Boudier argumentava que os homens da aristocracia preencheram esse vazio assumindo como seus os interesses femininos. Os salões, a conversação, a moda e os jogos caracterizavam, de forma crescente, a vida aristocrática de ambos os sexos. "como a brandura feminizava tudo", comentava Boudier, "o contraste estabelecido pela natureza entre os dois sexos desapareceu.". Em meados do século XVIII, já não havia dois gêneros contrastantes - um masculino, um feminino -, mas dois gêneros femininos. Portanto, os rousseaunianos como Boudier concordavam com os feministas da Querelle des Femmes em que a sociedade européia se havia tomado mais feminizada. Porém, ao contrário dos feministas, que encaravam essa mudança como um caminho para o refinamento e o aprimoramento da civilização, os rousseaunianos acreditavam que a situação havia fugido ao controle e se tornara indecente. Embora paradoxal, seu apoio à melhoria da posição social da mulher era contrabalançado pelas preocupações acerca da confusão entre os papéis de gênero. De certo modo, os rousseaunianos diferiam dos feministas menos na forma de ver as mulheres do que na maneira de ver os homens. Eles se mostravam profundamente ambíguos quando se tratava de determinar se a feminização dos homens da aristocracia era algo bom ou ruim. Afinal, mesmo para Rousseau, o aspecto mais perigoso das mulheres amazonas era o seu efeito feminizador sobre os homens. Essa ambigüidade encontra sua mais perfeita expressão nas Reflections upon polygamy [Reflexões sobre a poligamia], de Patrick Delany, uma obra religiosa britânica, sustentava que um excessivo intercurso social e sexual com as mulheres resultava em uma moléstia, a "emasculação", cujo efeito consistia em transformar literalmente os homens em mulheres, em virtude do definhamento de sua genitália. Em essência, portanto, era o temor da "emasculação", mais do que qualquer hostilidade direta em relação às mulheres, que incitava os ardores de Rousseau. É impossível dizer com precisão como se cruzou esse campo de batalha ideológico, visto que as idéias sobre gênero eram muito fluidas e assistemáticas, pelo menos até a década de 1780. Contudo, uma coisa podemos admitir : a mulher se apropriou de muita coisa, tanto dos rousseaunianos quanto dos autores da Querelle des Femmes. Rousseau responsabilizava as mulheres por boa parte da corrupção da monarquia francesa - mas não todas as mulheres. As idéias acerca das atividades funestas de Pompadour podem ser lidas como uma espécie de sermão rousseauniano sobre aquilo que acontece quando certo tipo de mulher - a saber, lasciva, irreligiosa e autocrática - alcança o poder. Em vista da ascensão de Catarina, a Grande, ao trono da Rússia, naquele período, esse tipo de mulher parecia haver adquirido, aos olhos de muitos observadores, um poder político sem precedentes na Europa. Os autores da Querelle des Femmes em que essas mulheres estavam longe de ser representativas do seu sexo. De fato, em um mundo patriarcal que favorecia a ambição política e a imoralidade sexual, mulheres do tipo de Pompadour e Catarina eram as únicas que podiam ter êxito. Ao contrário dos rousseaunianos, os autores da Querelle não concluíam, a partir de um reduzido número de exemplos notórios, que todas as mulheres deveriam ser excluídas da vida pública. Em vez disso, voltavam-se para um modelo diferente de feminilidade, mas sim representado por mulheres de tempos antigos, como Joana d'Arc. Tendiam a idealizar mulheres castas, se não virgens, que, como a fidalga madame de Caylus (1673-1729), rejeitavam o universo político da corte em favor do mundo religioso do convento, mas, não obstante, mantinham sua presença na esfera pública, redigindo tratados piedosos para outras mulheres e ajudando a ampliar o papel dos conventos na sociedade francesa. Essas mulheres não constituíam exemplos da vida doméstica pregada por Rousseau, mas eram celebradas por sua coragem, militância, patriotismo e determinação no propósito de mudar a face da sua sociedade. Assim, podemos encontrar as fontes da concepção de feminilidade da época, tanto nos rousseaunianos quanto nos seus adversários. No entanto, é bem mais difícil definir as origens das idéias a respeito da masculinidade. Não existiu um único autor no século XVIII que tenha tratado a feminização dos homens em termos francamente positivos. os autores feministas da Querelle des Femmes mantinham- se no máximo ambivalentes, ao passo que os rousseaunianos imaginavam uma epidemia generalizada de "emasculação". Se os atos dizem mais do que as palavras, transformar-se voluntariamente em mulher constituía a suprema celebração da feminização do homem. Entretanto, as ações não dizem mais do que as palavras; na verdade, as palavras podem ter uma vida muito mais duradoura. A palavra das mulheres, durante muito tempo nas camadas superiores da sociedade, passou primeiro pelo domínio da conversação, ainda mais do que o espaço material, é a palavra e a sua circulação que modelam a esfera pública. A idéia de que a natureza das mulheres as destine ao silêncio e à obscuridade está profundamente arraigada em nossas culturas. Restritas ao espaço do privado, no melhor dos casos ao espaço dos salões mundanos, as mulheres permanecem durante muito tempo excluídas da palavra pública. No século XVIII, os salões ganham um aspecto mais político. Pela conversação, circula a informação e se elabora a crítica da monarquia. As mulheres ocupam aí um lugar importante, não em igualdade com os homens, que são os únicos a serem escritores e filósofos, mas sim como donas de casa informadas, ouvintes atentas e curiosas, que discutem sobre tudo. "Pela conversação se cria um espaço de jogo que torna possíveis as réplicas entre vozes femininas e masculinas, e que transforma o espírito em seu ponto de concordância perfeito" (Marc Fumaroli ) Será que desde a antigüidade a mulher sempre foi submissa e dedicada exclusivamente ao lar e somente agora ela está "libertando-se?" Qual será a motivação básica que leva as mulheres a trabalhar fora de casa "necessidade" de dinheiro ou de realização? Que impulso as coloca na dualidade entre trabalho e lar, muitas vezes gerando sentimentos de culpa e tomadas de decisões maniqueístas frente a situações para as quais não foram preparadas?
CONSIDERAÇÕES FINAIS As implicações são muitas. Esses elementos e fatos que constituem a participação da mulher na esfera pública, por pequenos ou insignificantes que pareçam, tem significado. As situações diárias, a sensibilidade e o corporativismo feminino. A capacidade de sentir todo um estigma, modifica sua postura profissional? Para uma construção de identidade, seu esforço é dobrado, a inferioridade da mulher não é biológica, nem psicológica: é social e econômica. E produzida no seio da sociedade, fruto de processos de socialização distintos. De acordo com Hartmann (Apud Camacho, 1994:20), a parceria entre patriarcado e capitalismo fica evidenciada na divisão sexual do trabalho no interior da força de trabalho. Às mulheres são destinadas as atividades pouco remuneradas (professoras, secretárias, assistentes sociais, enfermeiras, faxineiras, telefonistas). O salário diferenciado, gerado no interior do patriarcado capitalista, termina por gerar, também, um papel secundário para o trabalho das mulheres. O conceito de gênero nos auxilia a avançar para além da visão biológica do homem e da mulher, no sentido de analisar as relações sociais entre os sexos, destacando o caráter histórico da lógica patriarcal-capitalista que transformou as diferenças naturais em desigualdades sociais. Scott (1990:14) destaca 1.º gênero, como "elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre diferenças percebidas entre sexos", e, 2.º como "primeiro modo de dar significado às relações de poder". A desigualdade entre homens e mulheres é fruto da desigualdade social que caracteriza a sociedade de classes. A opressão de gênero e a opressão de classe são faces da mesma moeda " o capitalismo patriarcal (Hartmann, apud Camacho, 1994:21). A sociedade brasileira é marcada pela discriminação e opressão às mulheres. Duas são as principais formas de opressão; a econômica e a cultural. Senão vejamos: Segundo dados da ONU, apresentados por Falcão (1996:11), as mulheres brasileiras têm uma expectativa de vida superior à dos homens (68,9 anos contra 64,1), praticamente empatam em alfabetização de adultos e matrículas, mas perdem, longe, em participação na renda. Ainda de acordo com a mesma fonte, a riqueza brasileira se distribui de forma a destinar 71,4% para os homens, sobrando às mulheres os 28,6% restantes. Segundo dados fornecidos pelo IPEA/1996, o desemprego no Brasil atinge mais as mulheres (homens 6,1% e mulheres 8,9%). Em relação à opressão cultural, há maior sutileza. Segundo Saffioti (1989:25) "violência e ideologia são fenômenos complementares no processo de dominação-exploração: o poder que é masculino, ideologiza as situações de opressão para permanecer desfrutando privilégios. A "naturalização" da desigualdade entre mulher e homem é introjetada no individual e no coletivo, incorporando-se na cultura do povo. Neste sentido, a mesma autora aponta que a ideologia tem a capacidade de legitimar a ordem social imposta pela classe hegemônica, fazendo com que os subordinados aceitem como natural a disciplina moral e laboral que satisfaz aos interesses dos que detêm o poder. Saffioti (1989:37) acrescenta que o processo ideológico dominante determina profunda dicotomia entre homem e mulher. A mulher, socializada para sujeitar-se aos caprichos masculinos, incorpora muitos, senão todos, os valores patriarcais. Assim, a mulher, fazendo sua a ideologia que a inferioriza e infelicita, veicula-se ao socializar as novas gerações. Isto não significa, destaca Saffioti, que a mulher seja a única responsável pela transmissão da ideologia dominante. Também o homem, através da ação e sobretudo da omissão, desempenha este papel. Vamos buscar em Muraro (1995:193) o reforço para esta idéia. Na família patriarcal, desde que nasce, a criança vê o pai mandando e a mãe obedecendo. Como as impressões dos primeiros anos de vida nos marcam indelevelmente, a criança tende a "naturalizá-los", ficando para sempre, no inconsciente de homens e mulheres, a aceitação de uma sociedade autoritária, coercitiva, desigual e, portanto, injusta. Para Castro (1991:14), não é suficiente recorrer às discriminações postas pela sociedade para explicar a fraca representação das mulheres. Enfim, com referência a participação da mulher na rede, no ano 2000, a estimativa de participação da mulher na Internet é de 48% dos usuários, segundo o Stats (www.e.land.com/e-Stat pages/e-stat-main.html)7 o que significa 52,4 milhões de internautas acessando a rede. Esse dado reflete o aumento crescente que o sexo feminino vem tendo como usuária deste tipo de tecnologia Há dois anos, elas representavam 24% e hoje este número está em 39%. Em uma pesquisa feita nos Estados Unidos pela NetSmarh ( www.netsmart.research.com), coordenada pela psicóloga Bernardet Tracy, chegou-se a conclusão que em 2005 a maioria dos usuários do mundo digital será de mulheres. Conforme a pesquisa, a mulher acessa a Internet buscando informação. Nesse sentido, como um instrumento de trabalho e estudo, aproveitando-a, também, para fazer compras sem sair de casa. Os homens norte-americanos acessarão a Rede com a finalidade de entretenimento. A prioridade da mulher em utilizar os serviços tecnológicos como uma ferramenta de trabalho explica-se pelo fato de, nos EUA , ela ser a responsável pelo controle da economia doméstica em 70% dos lares. Por essa razão, estaria mais interessada na difusão dos serviços on -line. De acordo com as pesquisas da diretora da Unidade de Pesquisa sobre Cultura Cibernética da Universidade de Warnick, Estados Unidos, Sadie Plant, toda a maquinaria que compõe o computador sempre foi operada por mulheres. Para a pesquisadora, os homens têm organizado claramente a atividade tecnológica, mas agora, com a mudança cultural que está ocorrendo, o papel por eles assumido está diminuindo. Na sua concepção, ser o organizador não é, atualmente, o fator mais importante. Sadie Plant diz acreditar que a mulher vai utilizar a Rede, cada vez mais, na tentativa de buscar informações especificas . Para a doutora em Ciências pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Heloísa Cardoso 9, o neo-feminismo dos anos 90 se diferencia do feminismo de outras décadas pelo fato de que a mulher de hoje não aspira mais à igualdade com os homens. Ela diz acreditar que a tecnologia foi um dos aspectos que facilitou esta mudança de comportamento do sexo feminino. Para ela, o crescimento da mulher na Rede pode ser explicado através da psicologia junguiana por meio da figura do "animui" 10 mais incentivado pelas características do mundo virtual. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 1. Jean-Jacques Rousseau, Politics and tbe arts: tbe letter to dAlembert on tbe tbeater, tradução de Allam Bloom (Ithaca, N, Y., 1968), 82-3, io0-1. 2. Domna C. Stanton, 7be aristocrat as art: a study oftbe bonnête bomme altd tbe dandy in seventeentb- and nineteentb-centuly Frencb literature (Nova York, 1980). 3. Rousseau, Emile, orEducation, tradução de Allan Bloom (Nova York, 1979), 365. 4. Ruth Graham, "Rousseau's sexism revolutionised", em women in tbe eighteentb century, ed. Paul Fritz e Richard Morton (Toronto, 1976), 127-39. 5. Samuel B. Taylor, "Rousseau's contemporary reputation in France", studies on voltaire and tbe Eigbteentb Centuly 27 (1963): 1545-74. 6. Jean-Zorobabel Aublet de Maubuy, Les vies des femmes illustres de la France, 6 vo[umes (Paris, 1762-68), 1:viii; lRiba[[ier e M[[e Cosson,1 De i'éducation morale e pbysique des femmes, avec i¿ne notice alpbabétique de celle,ç qui se sont distinguées darts les différentes carriéres (Bruxelas, 1779), 25-36, 217-9. 7. Fragmento inédito intitulado pe[o editor "Sur [es femmes lc.17431", oeuvres de Rou.çseau, ed. Bemard Gagnebin e Marcel Raymond, 4 volumes (Paris, 1964),2:1254-5. . 8. "Observations du prejugé sur la différence des sexes 1...1", na Rousseau/ Dupin Collection, Harry Ransom Humanities Research Center, Universidade do Texas e Austin. en 1957 et 1958", Annales de la société de Jean-Jacque.ç Rousseau 36 (1963-5): 178-290. 9. Williams, "The fate of French feminism: Boudier de villemart's Ami des Jémmes?', Eigbteentb-Century studies 14 (1980-1):44. 10. Patrick Delany, Rçflections upon polygamy, and tbe en¿ouragement given to tbat practice in tbe scriptures qftbe Old Testament (Londres, 1737), 32-3. 11 Simonetti, Eliana. .O fim do século masculino. In: Revista Veja. São Paulo: Abril. .25.02.1998. Págs. 46-52. 12 Clair, Renée. La formación científica de las mujeres. Por quê hay tan pocas cientificas? Madri: UNESCO, Comision Francesa para la UNESCO. 1996. 13 Larguia, Isabel; DUMOULIN, John. 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